O espaço era de um negro absoluto; não reflexão deficiente da luz, mas absorção. O chão e o ar não se distinguiam, tamanha a força da anti-cor. Expandia-se o cenário por todas as direções, era interminável. No meio – num plano infinito, todos os pontos são o meio -, um velho inerte fitava o abismo. Sua face alva era claramente marcada pelo tempo, sulcos cortavam-lhe a testa que parecia sempre franzida. O cabelo grisalho e em pé fazia contraparte com o nariz adunco que despontava-lhe a face. Os olhos eram de um tom azulado, quase lembrando a cegueira, e olhavam, infiéis, o Nada.
Aproxima-se, numa marcha vigorosa, quase apressada, mas sem perder a elegância, um jovem na melhor da idade, fisicamente vigoroso, bem vestido, com os cabelos muito pretos e bem escovados. Aborda o velho:
- Ora, veja só! Não esperava encontrar ninguém por essas paragens. Prazer, quem é você?
– Sou, ou não sou, evidentemente, Ninguém.
- Ora, ora! Curioso o nome, sr. Ninguém; o que faz?
- Não faço nada, porque não há nada a ser feito. Qualquer tentativa é só um passo para o fracasso. Inclusive essa conversa: a comunicação não existe.
- Mas isso não pode ser, sr. Ninguém. Veja, o senhor mesmo acabou de comunicar-me que a comunicação não existe, isso se trata de uma comunicação, não vê a falácia?
- E quem disse que isso é, de fato, o que penso? A comunicação não se trata de palavras, mas de essências transmitidas. Digo de antemão que é impossível transmitir uma essência, essa coisa que não sabemos-o-quê, e que chamamos “eu”.
- Entendo. O senhor tem uma teoria interessante, embora pouco inspiradora, sem dúvida.
- O mundo é sob a égide da miséria, inspiração é ilusão e entorpecimento. Desejo viver a verdade. Veja, você é jovem… Tem esperanças, sonhos; eventualmente envelhecerá, que é sinônimo de desilusão. Aí sera como eu, aí será, de fato, eu. Talvez tenha de ser assim, se aos jovens coubesse a lucidez, a espécie não progrediria. Passe bem.
– Mas é aí que o senhor se engana: sou lúcido. Sei que serei você, por isso encerro agora esta conversação.
E, num frenesi, o jovem larga a pasta, mete a mão pelo bolso, da onde tira um revolver, e dispara no peito do velho, que solta um grito e cai no chão. O sangue que lhe verte pelos buracos abertos no peito escorre pelo chão, criando um belo efeito estético do contraste entre o negrume do solo e o escarlate do sangue. Não hesitando, o jovem mete a arma na têmpora, suando frio. Um estampido corta a planície.
(No chão, a maleta solta que se abriu deixa o vento espalhar seu conteúdo: centenas de folhas em branco voam pelo espaço.)