12
Jun
09

Kim Ki-Duk: O Tempo sob duas ópticas.

Tempo

The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death

(Time, Pink Floyd.)

Kim Ki-Duk é um dos cineastas que formam a nova geração do expoente cinema sul-coreano. Destoa um pouco do que virou regra já nesse nicho: a violência exagerada e os combates sangrentos. Não, não digo que seus filmes não são violentos – na realidade talvez sejam até mais violentos que os de seus colegas, a seu próprio modo – assim como Dolls talvez seja um dos filmes mais violentos de Takeshi Kitano, mesmo sem fazer uso de brutalidades, gangues, etc. Fato é que inegavelmente seus filmes são mais parecidos com aquilo que geralmente se tem como “cinema de arte”, ainda que o termo seja controverso.

Uma das temáticas do diretor é o já universalmente discutido tema da passagem do tempo. Em duas grandes películas ele explora esse tema por diferentes ângulos. Primeiramente há “Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom” (Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring, 2004). Este narra a vida de um aprendiz de monge budista que vive num templo sob um lago, fazendo analogia com as estações do ano. Tudo é cíclico, porém algumas ações são irreparáveis. Quando o protagonista ainda é jovem (a primavera), por diversão amarra pedras a alguns animais. O mestre, observa atentamente e quando seu aprendiz dorme, amarra uma pedra a ele também, prometendo só desamarrá-la quando ele voltasse, achasse os animais e libertasse-os novamente. Sucede que voltar atrás de algumas ações é impossível: alguns dos animais que o garoto tinha amarrado já haviam morrido. Nesse contexto to tempo não é senão uma máxima validando a liberdade do ser, numa perspectiva existencialista. O indivíduo é livre, mas deve arcar com as consequências de suas ações ainda no mundo terreno. Mas além disso, o tempo é também uma eterna sucessão de inevitáveis e incessantes repetições. Após o inverno, surge novamente a primavera; igual, mas, como real, única e diferente. “Nada torna, nada se repete, porque tudo é real “, como diria Alberto Caeiro, em um verso que aparentemente contradiz a perspectiva de Ki-Duk, mas numa análise mais cuidadosa é a mesma visão do diretor.

Shi Gan (Time, 2008) é a segunda investida cinematográfica que discorre sobre o tema. Em conjunto com o outro nota-se as projeções antropocêntricas do homem no Tempo: se a passagem do outro era lenta e tranquila, nesse – passado na metrópole Seul – é o oposto, que coexiste no mesmo mundo. O tempo “pós-moderno”, que já houvera sido preconizado por Marx, na famosa afirmação “tudo que é sólido se desmancha no ar”, depois reaproveitada como título da obra homônima de Marshal Berman. Sim, tudo é metamorfose, o presente não é mais duradouro, e muda-se a si próprio com a mesma felicidade que se muda de roupa ou celular. Somos apresentados a um casal que completa o segundo ano de relacionamento, e começa a nascer a desconfiança por parte da mulher. O “Iago” em questão não é uma pessoa física, tampouco um objeto material, mas a falta de segurança a que se segura em qualquer coisa, inclusive o próprio corpo. Este, ainda que dotado de beleza, enjoa se permanece o mesmo. Essa é a reflexão de Se Heh, que decide então mudar sua própria face por meio de uma brutal cirurgia plástica para agradar o namorado (mesmo sem esse concordar com a mórbida ideia). A tragédia que segue é só projeção desse infeliz mote a que seguimos com esmero. É inevitável recordar Rosseau, citado pelo mesmo Berman:

eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas perturbem meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual meu lugar. (…) vejo apenas fantasmas que rondam meus olhos e desaparecem assim que os tento agarrar.”

A reflexão do personagem principal da novela A Nova Heloísa, que passara do campo para a cidade, também se faz presente no filme: o tempo é polimórfico, e depende da conjuntura que o cerca. Ainda que os personagens tipicamente urbanos estejam mergulhados nessa rápida sucessão de tentações e consumo que os cercam, há uma frequente visita a um local afastado da cidade, o “Parque das Esculturas”. Esse lugar é contrário a cidade, e o fato de possuir esculturas é providencial: estas são imutáveis, independente do estado e dos personagens que compareçam lá, as esculturas permanecem quase iguais. Quase, porque, como tudo, elas não são imunes a ação do tempo, apenas menos susceptíveis, já que esse ainda as muda. A passagem do tempo não é opção.

09
Jun
09

Léxico apropriado

- Olha Maria, nem sei como te falar isso…
- Dizer o que?
- Bom, é que…
- Anda homem, estou escutando.
- Certo… Então, eu te amo, porra!

03
Jun
09

Elogio da servidão

Aristóteles afirmava que havia a classe dos senhores e a dos escravos. Se hoje já não se aceita mais essa tese, digo que ele não estava de todo errado, absolutamente. Porém, não necessariamente as aparências de quem é escravo e quem é senhor estejam corretas, tampouco os usuais métodos de classificação.

O fato: amamos o tédio mortal da rotina, amamos esquecermo-nos do próprio intelecto para executar incessantemente qualquer atividade banal e mecânica. Por mais que reclamemos, essa reclamação tem, também ela, caráter cotidiano. A liberdade é chagásica: os livres tem inchado seu coração, que aos poucos definha e entra em falência. Ser livre não é fazer o que quiser, quando quiser, mas suportar o próprio destino e, sobretudo, pensar.

Grande indício disso são os “passa-tempos”. Etimologicamente, a palavra já diz tudo o que precisamos saber. Se há tempo “livre” – que no caso tem por significância não ser ocupado por atividade inerte -, rapidamente recorremos a esses analgésicos existenciais, para nos privar da insuportável liberdade, da insustentável leveza do ser, como diria Milan Kundera. Cada vez mais o espírito livre entra em declínio, o que antes era caracterizado por atividade essencialmente intelectual, artística, “nobre; as artes de modo geral, a filosofia, etc. Passa para a esfera dos passa-tempo. Livros não servem senão para atordoar a percepção da realidade, filmes inocentes e cheios de explosões aceleram o tic-tac do ponteiro, e os jogos, esses que mal se desenvolveram como arte, se tornam um novo tipo de labor, permeados por objetivos mesquinhos de acúmulo de bens virtuais e fictícios.

A liberdade também não é um elixir da incessante felicidade, esse mito burguês que nunca foi atingido, mas condena os que o negam como leprosos. O sofrimento, esse sim é o eterno companheiro do espírito livre, que sabe como ninguém, no entanto, o verdadeiro gosto da felicidade. Aquela que não é falsa, nem regada de Prozac (outra invectiva contra o livre arbítrio, diga-se de passagem).

Sabiamente conjecturou Ivan Karamázov, por meio de um Cardeal fictício que ele inventara: “Não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se.”

27
Mai
09

Verbetes

Metafísica S.f.,

1. tipo de pensamento inerente ao mal estar.

Paz S.f.,

1. substância tóxica, 2. veneno comumente usado por suicídas, 3. estado de óbito.

Necessidade s.f,

1. característica abstrata inexistente, 2. fantasia, 3. ilusão.

Acaso s.m,

1. destino,

07
Mai
09

Curtas

Existem uns dias que o ser humano deve se dedicar unicamente à culpa, qualquer esforço para vencer esse impulso é inútil e fadado ao fracasso. Há muito a ser feito, o tempo é relativamente escasso; a vida, também. Entretanto, nesses dias onde o ócio vence qualquer expectativa de ação, tudo que se consegue fazer é prolongar ações inúteis no sentido – inconsciente, claro – de esgotar o próprio tempo. O sentimento de culpa que acompanha esse estado de espírito é terrível. Sorte que nós, humanos, somos dados ao masoquismo. Como o interlocutor pode perceber, esse é um desses dias na vida do penitente autor desse texto.

***

As vezes acho que a extrapolação humorística da sentença de Lavosier para o mundo das artes (“nada se cria, tudo se copia”) é verdadeira. Escrevi há um certo tempo para esse blog um texto com três excentricidades para serem realizadas por um espírito aventureiro em uma metrópole qualquer. Pois, dia desses, lendo Drummond, encontro um texto muito semelhante, baseado na mesma premissa, mas com caráter narrativo. Chama-se “Os Excêntricos”, e segue abaixo:

1

Chega a uma fazenda, apeia do cavalinho, ô de casa! Pede que lhe sirvam leitão assado, e retira-se, qualquer que seja a resposta.

2

Diz: “Vou para o Japão” e tranca-se no quarto, só abrindo para que lhe levem alimento e bacia de banho, e retirem os excretos. No fim de seis meses, regressa da viagem.

3

Cola duas asas de fabricação doméstica nas costas e projeta-se do sobrado, na certeza-esperança de vôo. Todas as costelas partidas.

4

Apaixona-se pela moça, que casa com outro. Persegue o casal em todas as cidades para onde este se mude. O marido, desesperado, atira nele, pela janela. No outro lado da rua, de outra janela, dá uma gargalhada e desaparece: a bala acerta no boneco que o protege sempre.

5

Data as suas cartas de certo lugar: “Meio do mundo, encontro das tropas, idas e vindas”. Ao terminar, saúda: “Dãodarãodãodão” e assina: “Dr. Manuel Buzina, que não mata mais amofina”.”

***

Dos Verissimos, conhecia melhor o Luís Fernando. De seu pai havia lido apenas, em rápidos três dias, o fragmento mais popular de “O Tempo e o Vento”: “Um Certo Capitão Rodrigo”, que a época muito me agradara. Li nessa última semana mais um: “Olhai os Lírios do Campo”, livro de caráter realista bastante interessante, apesar de, segundo o próprio autor, ser em partes exageradamente salvacionista, e, minha opinião agora, talvez um pouco puritano. Diversas passagens são dignas de nota, seja pela beleza ou pelas profundas verdades que revelam. Entre elas, gosto de lembrar de uma em particular: “[...] O mundo seria insuportável se as criaturas tivessem boa memória”.

28
Abr
09

Criacionismo edipiano

Eu, criador de mim,
ao mesmo tempo próprio iconoclasta.
É preciso, ante a incapacidade de mudá-lo,
amar o destino – furando os olhos?

24
Abr
09

Nevermore – Pequena Narrativa Fantástica

A alguém que jamais lerá.

I

A tarde que havia passado servira perfeitamente como prelúdio para a treva imensa que se instalou, e que eu contemplava pela janela recém aberta, enquanto – paralelamente – bebericava uísque em doses homeopáticas. Através do destilado, a melancolia lentamente ia tomando conta de meu fatigado espírito quando, de súbito, algo chamou minha atenção. Numa arvore que se erguia a poucos metros da janela – vale alertar o leitor que encontrava-me numa casa de campo – havia um magnífico pássaro preto, cuja imponente plumagem era de um negrume que ofuscava a própria escuridão noturna. Pousado um segundo olhar sobre o animal, notei que por sob seu peitoral escorria, em quantidade, um espesso fluido rubro. Conclui que ele havia sido ferido e agonizava, com o espectro da morte à espreita.

Tamanho havia sido o espanto que a ave impregnara em mim que decidi prover ajuda de algum tipo a ela, de modo a extirpar-lhe a certeza de óbito eminente. Tal impulso não foi, de forma alguma, uma comoção piedosa. Na verdade, sentia que o mundo estaria perdendo seu valor se aquela valorosa besta abandonasse a existência.

Conforme me aproximei do pássaro, a fim de capturá-lo, ele, provavelmente já tomado de incerteza e desconfiança quanto ao futuro, certamente achou que eu aproveitar-me-ia da situação para devorá-lo. Mesmo ferido, num gesto ágil e de grande precisão bateu vigorosamente suas fortes asas e mergulhou na espessa massa negra da noite.

II

O acontecimento narrado, e provavelmente exagerado, por mim nada tem de insólito. Porém, depositou sobre meu coração uma chaga insuportável. Durante aquela e mais outras noites não consegui pregar os olhos. Os mais ingênuos pensarão que eu lamentava pelo destino de olvido que a ave muito possivelmente iria encontrar; outros acharam que eu padecia por ter visto a Beleza e por ter certeza que nunca mais a veria, justamente quando havia me aproximado tanto dela. A razão a que dou mais crédito não é nenhuma dessas. O medo terrível que se instalara em mim não era de que o animal tivesse passado aos planos etéreos, mas que, em realidade, nunca tivesse de fato existido.

21
Abr
09

Requiem Aeternam

requiem

Não consigo me recordar de períodos em minha vida em que aceitei a idéia de um deus onipresente, ciente e potente. Quanto menos de Deus, no entendimento cristão da abstração. Não obstante, sempre fui grande admirador da arte sacra, em suas mais diversas formas. Desde obras materiais – como a Pietá de Michellangelo que ilustra o topo deste post, ou mesmo as igrejas e catedrais espalhadas pelo mundo -, como também as etéreas, ou seja, a música. Sendo grande admirador do cânone de Bach, não poderia ser diferente.

Dentre as peças compostas diretamente para a liturgia – missas, cantatas, etc. – tenho uma predileção especial pela categoria dos réquiens. Um réquiem é uma missa cristã, adotada por diferentes vertentes da religião, como uma missa para os mortos (Missa pro defunctis). Etimologicamente, a cerimônia recebe esse nome dado às primeiras palavras do intróito, usualmente: “Requiem aeternam dona eis”, do latim: “dá-lhes descanso eterno”. Não há maneira fixa para a composição de peças dessa modalidade, ainda que respeitem, certo modo, alguma estrutura.

Meu primeiro contato direto com um réquiem, ainda me recordo, foi certa vez quando assistia um tio jogar videogame. O jogo: Onimusha 3: Demon Siege; em certo momento era exibida uma animação de computação gráfica. Nela Paris era invadida por demônios que dilaceravam pessoas com requintes de crueldade regidos por um potente coral latino. A música não podia ser mais providencial, era o movimento Dies Irae (Dia de Ira), do potente e famosíssimo réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Acho que isso ilustra uma das faces desse tipo de obra. É uma obra que, sobremaneira, comunica a perda, com todas suas faces. Isto é, alguns réquiens são mais solenes, outros etéreos, e ainda há os que emanam fúria. Também levanta-se a suspeita do porque não é um tipo de composição popular hoje: na sociedade contemporânea recalca-se a morte, ainda que para isso tenha que ser feita uma incessante repetição desta – para torná-la banal? -. A perda não é mais valorizada, prefere-se escondê-la ou fingir que esta não existe. Nesse cenário, não é difícil constatar que peças musicais extensas e de caráter primariamente reflexivo estejam postas em segundo, ou até terceiro, plano; cenário este que prefiro ignorar frente a beleza dessas missas.

27
Mar
09

Diálogo impossível

“Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito?” Inquire Nietzsche.

Responde Édipo, o Decifrador de Enigmas: O conhecimento que me levou ao apogeu é de mesma natureza que o que causou minha desgraça. Por vezes, a ignorância pode ser uma benção!

12
Mar
09

Música da Terra – C. Drummond de Andrade

A dor habita em nós, o cravo a ignora.
A vida, uma gavota? Pura dança
o amor? No minueto de Lully
cabe a dificuldade de existir?

Quinta-essência do angélico, no caos
paira a graça de Mozart sobre o abismo,
sem devassá-lo – pássaro de nuvem.
O tempo é outro metal, a comburir-nos.

Urge romper o gosto, a norma límpida,
e sangrentas estilhas do momento
passar à forma nobre da sonata.
Urge extrair do piano o som dramático.

E sucitar o diálogo patético
entre piano e violino, qual se escuta,
na penumbra da alma, a duas vozes,
um rumor de paixão se entretecendo.

Eis que a música deixa de ser pura.
Os serafins e os elfos se despedem.
A terra é lar dos homens, não dos mitos.
Há que desmascarar nosso destino.

Em tatear incessante, no conflito
corpo a corpo entre o ser e a contingência,
nova música, ungida de tristeza
mas radiante de força, vem ao mundo.

Luta o homem na área desolada
de sua solidão; luta no palco
fremente de contrastes, percebendo
que pouco a pouco cerram-se os espaços

da percepção, e tudo se limita
à captação interna, de sinais
salientes, impalpáveis, invisíveis,
nunca porém tão vivos se captados.

À proporção que a dor aumenta, e em volta
nega-lhe o amor seus bálsamos terrestres,
ganha requinte a fábrica sonora
de eternizar a vida em breve arte.

Es muss sein! É preciso! Na amargura,
na derrota do corpo, sublimada,
a canção do heroísmo e da alegria
resgatam nossa mísera passagem.

E entreabre a sinfonia suas palmas
imensas, a conter todo o rebanho
de perplexos irmãos, de angustiados
prospectores de rumo e de sentido

para a sorte geral. O homem revela-se
na torrente melódica, suplanta
seu escuro nascer, sua insegura
visão do além, turva de morte e medo.

Ó Beethoven, tu nos mostraste o alvorecer.

(1977)