Antevisão e Morte

Novembro 5, 2009 - Leave a Response

O espaço era de um negro absoluto; não reflexão deficiente da luz, mas absorção. O chão e o ar não se distinguiam, tamanha a força da anti-cor. Expandia-se o cenário por todas as direções, era interminável. No meio – num plano infinito, todos os pontos são o meio -, um velho inerte fitava o abismo. Sua face alva era claramente marcada pelo tempo, sulcos cortavam-lhe a testa que parecia sempre franzida. O cabelo grisalho e em pé fazia contraparte com o nariz adunco que despontava-lhe a face. Os olhos eram de um tom azulado, quase lembrando a cegueira, e olhavam, infiéis, o Nada.

Aproxima-se, numa marcha vigorosa, quase apressada, mas sem perder a elegância, um jovem na melhor da idade, fisicamente vigoroso, bem vestido, com os cabelos muito pretos e bem escovados. Aborda o velho:

- Ora, veja só! Não esperava encontrar ninguém por essas paragens. Prazer, quem é você?

    – Sou, ou não sou, evidentemente, Ninguém.

    - Ora, ora! Curioso o nome, sr. Ninguém; o que faz?

    - Não faço nada, porque não há nada a ser feito. Qualquer tentativa é só um passo para o fracasso. Inclusive essa conversa: a comunicação não existe.

    - Mas isso não pode ser, sr. Ninguém. Veja, o senhor mesmo acabou de comunicar-me que a comunicação não existe, isso se trata de uma comunicação, não vê a falácia?

    - E quem disse que isso é, de fato, o que penso? A comunicação não se trata de palavras, mas de essências transmitidas. Digo de antemão que é impossível transmitir uma essência, essa coisa que não sabemos-o-quê, e que chamamos “eu”.

    - Entendo. O senhor tem uma teoria interessante, embora pouco inspiradora, sem dúvida.

    - O mundo é sob a égide da miséria, inspiração é ilusão e entorpecimento. Desejo viver a verdade. Veja, você é jovem… Tem esperanças, sonhos; eventualmente envelhecerá, que é sinônimo de desilusão. Aí sera como eu, aí será, de fato, eu. Talvez tenha de ser assim, se aos jovens coubesse a lucidez, a espécie não progrediria. Passe bem.

      – Mas é aí que o senhor se engana: sou lúcido. Sei que serei você, por isso encerro agora esta conversação.

      E, num frenesi, o jovem larga a pasta, mete a mão pelo bolso, da onde tira um revolver, e dispara no peito do velho, que solta um grito e cai no chão. O sangue que lhe verte pelos buracos abertos no peito escorre pelo chão, criando um belo efeito estético do contraste entre o negrume do solo e o escarlate do sangue. Não hesitando, o jovem mete a arma na têmpora, suando frio. Um estampido corta a planície.

      (No chão, a maleta solta que se abriu deixa o vento espalhar seu conteúdo: centenas de folhas em branco voam pelo espaço.)

      “Antes de mais nada,

      Novembro 5, 2009 - Leave a Response

      quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações excecráveis que há de vir.”

      (S. Beckett, Malone Morre)

      Da liberdade incondicional

      Novembro 1, 2009 - 2 Responses

      “I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practise resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms, and, if it proved to be mean, why then to get the whole and genuine meanness of it, and publish its meanness to the world; or if it were sublime, to know it by experience, and be able to give a true account of it in my next excursion.” (THOREAU, H. D.; Walden, II)

      Divago:

      Outubro 31, 2009 - 3 Responses

      Porque na verdade existir uma despedida é o primeiro passo pra provar que não há a despedida de fato. O ritual de adeus é uma prova de que ainda há um laço qualquer; não houvesse, não haveria necessidade de formalidades. É análogo ao suicida que se preocupa muito com o que pensarão após sua morte: ele ainda está tão ligado à vida que não pode se dar ao luxo de morrer. Mesmo que morra, ainda está, de alguma forma, atado à vida, e é bem possível que não seja capaz de consumar o ato final.

      estudo medíocre

      Outubro 31, 2009 - One Response

      “Sou estúpido. Essa é minha convicção. Ou melhor, não acredito, de fato, em nada, portanto, está aí mais de uma de minhas crenças que se contradizem. Na verdade acredito que qualquer pessoa que acredite em qualquer coisa tem que ser, via de regra, estúpida… Agarro essa verdade como ídolo. Portanto concluo: sou estúpido.”

      “Veja, meu imaginado interlocutor (porque escrevo mentalmente e só para mim mesmo, sabe-se lá porque, e também não quero saber o porquê), realmente gostaria de ser uma daquelas bestas que não enxergam que nada que fazem tem algum sentido porque, afinal, o que é que tem sentido? Nada, respondo, esse é meu ponto. Em verdade a minha repulsa se traduz numa inveja da minha própria inabilidade para vida. Sim, porque viver é, também, ser ignorante, esquecer. Se houvesse uma tribo de eus – uma proposição absurda, admito -, está teria sido varrida da face do planeta segundo os mecanismos sagrados do darwinismo, ou sob a ira de Deus, pouco me importa a mitologia em questão. De fato, eu, assim como os outros, vi sentido em alguma coisa, ou em outra coisa, mas o acaso, ou por culpa minha, que o sr. escolha a filosofia que lhe mais lhe aprouver, enterrou cada uma dessas quimeras. Penso que se houvesse sucedido em algum de meus projetos ignóbeis seria hoje uma dessas bestas a que me refiro. É por isso, sobretudo, que sinto repulsa a esse tipo: eu mesmo sou um desses… A diferença é que falhei onde os outros obtiveram sucesso.”

      “Obviamente, no fundo, eu acredito que sou superior ao resto, mas uma fria análise por um desses respeitáveis senhores donos de caríssimos consultórios apontaria somente soberba. Digo-o totalmente sem propriedade, porque logicamente me julgo, também, superior à esse tipo que propõe alguma melhora a esse animal execrável chamado humano. Basta, sou estúpido!, sei disso, e não tenho pretensão alguma de me mudar, me tornar ainda mais estúpido – feliz, dizem alguns -. Antes quero a lama.”

      Atlas

      Outubro 31, 2009 - 3 Responses
      “Tudo – à vida, que nunca te deu nada!”
      (Soneto Italiano, Manuel Bandeira)

      Trazia consigo um embrulho amorfo, quente e indefinido. Nunca o largara e é certo que este despertava a curiosidade de todos que o viam ou vinham a ter com ele. Poucos sabiam, no entanto, que o artefato lhe trazia dores atrozes. Ele só não se livrava do mesmo, ou compartilhava com os outros, porque o tinha sido confiado por um deus, que dissera: “eis sua chaga, suporta-a. O dia que mencionar a alguém ou mesmo tentar livrar-se dela, esse sera o dia de sua perdição, e de todo o resto do mundo”. Trazia, então, o mundo às costas; o peso era insuportável, e, acima de tudo, impartilhável. Todos dormiam tranquilos em suas casas, frequentemente zombando o semblante sério, austero e como que contraído por alguma dor do indivíduo, que tentava, sempre que possível, retrucar com um sorriso. Quando as dores eram muito fortes, isolava-se com fim de não levantar suspeitas e poder externar às paredes de seu cubículo o que sentia. Nessas ocasiões há de se lembrar que condenavam o seu ostracismo, e cada vez mais lhe negavam a compreensão.

      Um dia, não aguentando mais, reuniu algumas pessoas numa sala e sacou o embrulho, abrindo-o. Findou-se o mundo, mas por um átimo viu na face dos perplexos, que agora tudo compreendiam, uma expressão de profunda reverência.

      Pessimismo oriental

      Outubro 16, 2009 - 6 Responses

      “[...] e a vida é, forçosamente, infelicidade; pois o que é viver? Viver é nascer, envelhecer, adoecer, morrer, além de outros males, entre eles um muito patético, que para Buda é um dos mais patéticos: não estar com aqueles que amamos.” – (BORGES, J. L.; Budismo, O. C. vol III, pg 279.)

      Cadernos – Sêneca (De Brevitate Vitae)

      Outubro 12, 2009 - 2 Responses

      “Pequena é a parte da vida que vivemos.” (Virgílio?)

      Divisão da vida, mas não da riqueza. Aonde reside o erro?

      “Compreenderás que morres cedo.” pg. 31

      “Viveste como se fosses viver para sempre, nunca te ocorreu tua fragilidade.” pg. 31

      Destinar a vida à posteridade: racionalidade? Não, certamente um erro! “Pois, quem pode ser superior ao que está acima do destino?” pg. 37

      “Nada está mais longe do homem ocupado que viver, nenhuma coisa é mais difícil de aprender.” pg. 41

      “Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que te admires durante toda a vida se deve aprender a morrer.” pg.41

      “Tendo conseguido os cargos com os quais sonhava, deseja largá-los e repete sem cansar: “Quando este ano passará?””. pg. 42

      “Cada um se lança à vida, sofrendo da ânsia do futuro e do tédio do presente.” pg. 43

      “Fazem seus projetos para longo tempo, porém esse adiamento é prejudicial para a vida, já que nos tira o dia-a-dia, rouba o presente comprometendo o futuro. A expectativa é o maior impedimento para viver: leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente.” pg. 46

      Tese: Ocupação: distração. Faz passar o tempo sem que se perceba (tempo físico, de mesmo passo, versus tempo psicológico, variável.) Brevíssima é a vida dos ocupados, não importando sua extensão.

      “[...] como se pudessem iludir o destino.” pg. 59

      “Não desfrutam do ócio aqueles cujos prazeres proporcionam muitas atividades.” pg. 59

      “Quantas trevas uma grande felicidade causa às nossas mentes!” pg. 61

      Critica o conhecimento pelo conhecimento (?), desprovido de força mobilizante na vida do que o detém. Camus, n’O Mito de Sísifo, faz comparação semelhante ao averiguar que Galileu nunca morreria pela defesa do heliocentrismo posto que, em última instância, isto lhe era indiferente.

      “Dentre todos, somente são ociosos os que estão livres para a sabedoria, apenas estes vivem, lhe acrerscentam a eternidade. Todos os anos que se passaram antes deles são somados aos seus. A não ser que sejamos ingratos, aqueles sábios fundadores das ideias sagradas nasceram para nós e nos preparam para a vida.” pg. 64

      “Perdem o dia esperando a noite; a noite, com medo da aurora.” pg. 71

      “Pobre daquele que, cansado mais de viver que de trabalhar, sucumbe entre suas próprias ocupações.” pg. 83

      “Ninguém tem a morte diante dos olhos, todos projetam longe as esperanças.” pg. 84

      Décadence

      Outubro 7, 2009 - 5 Responses

      J’ai avalé une fameuse gorgée de poison. – Trois fois béni soit le conseil qui m’est arrivé ! – ” Rimbaud

      Deem-me de beber que quero vomitar. Deem-me nocivas ervas venenosas, e também alucinações orientais. Quero sonhar o cadafalso metafísico que me aperta a nuca do espírito, agonizar com a chaga falsa que não tenho, carregar abóbada celeste nos ombros. Por fim, em purpúreo e repulsivo jato, expelir todo esse nojo; malícia e repugnância – chamam-no, alguns, caráter -.

      Retórica do Curso Pequeno

      Outubro 7, 2009 - One Response

      A estatística é uma ferramenta interessante quando colocada a serviço de uma ideologia, ou a fim de provar algo pela maioria. Tem-se como fato que o sistema educacional de nível superior público não cresceu o suficiente para absorver todo o contingente das classes A e B, ou Coimbra não é mais a mesma. Enfim, o ingresso nessas instituições, que não era fácil, foi ficando progressivamente mais difícil na medida que aumentava a população aspirante a bacharel etc. E como a única Lei é a do mercado, estava aí configurado o terreno para os cursos preparatórios – cursinhos -. As proporções megalômanas que estes atingiram é digna de nota, mas o que merece atenção real é o entendimento de educação que via de regra é adotado por eles. Em meio a um contingente de alunos cada vez mais imbecilizados por uma mídia de massa que professa a mediocridade como virtude, e cada vez mais incapazes de concentração ao que não espetacular, coube aos cursinhos a dura pena de educá-los para o fatídico exame, a fim de garantir o rebanho do ano seguinte pela estatística científica dos aprovados no ano anterior.

      Aproximar-se da mediocridade parece melhor que forçar o público à elevar-se. Senão melhor, mais fácil. Aí já não há, também, a responsabilidade da escola de formação cultural etc. Portanto, o campo está livre para métodos que em outros lugares não seriam imaginados. Uma parcela dos professores não merecem mais essa alcunha: são atores e palhaços. A fim de passar conteúdo fazem da aula um espetáculo, onde a condição de aluno é suprimida e em lugar surge o público. Ator e público, mas não num teatro: o ambiente muitas vezes rememora os programas dominicais da TV brasileira. Aí, antes de um olhar dedicado à aula, o principal é um olhar demorado sobre a retórica. Nisso reside um perigo, sabemos: Hitler era um excelente orador. Às traças de Machado de Assis, o público devora tudo o que os mestres, agora livres dos grilhões do “politicamente correto”, dizem, e isso inclui machismo, autoritarismo, preconceitos etc. Faz sucesso, muitas vezes, quem, com braço de ferro, doma a classe, grita e xinga. Claro, não é possível estender essa definição a todo o corpo docente. Na verdade, muitos são excelentes profissionais e, assim como nas salas do ensino médio, tem como maior antagonista a ausência de interlocutores a altura.