Poema Vinte

fevereiro 9, 2010 - Deixe seu recado!

Fique este poema como epitáfio e espólio de um pedaço de mim que suicidou-se.

Poema Vinte

Posso escrever os versos mais tristes essa noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrellada

e tiritam, azuis, os astros ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes essa noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mas imensa sem ela.

E o verso cai à alma como, em abundância, o orvalho.

Que importa que meu amor não pudera guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

Minha alma não se contenta com haver a perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura.

Meu coração a busca, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.

Nós, os de então, não somos mais os mesmos.

Eu não a quero, é certo, mas quanto a quis.

Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes de mim eram os beijos.

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Eu não a quero, é certo, porém talvez a quero.

É tão curto o amor, e é tão grande o olvido.

Porque nas noites como esta eu a tive em meus braços,

minha alma não se contenta com haver a perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que eu a escrevo.

Poema Veinte

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: ” La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos”.
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Poema de Pablo Neruda, tradução minha. Créditos da trancrição do original e sua posterior publicação na rede: Gustavo Hitzschky.

Cruz e Chibata

fevereiro 9, 2010 - Deixe seu recado!

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.

C.D.A.

Tom Edison Jr. é, também, um canalha. Todos são; o cosmo é de horror, ignomínia e torpeza, nos ensina Lars von Trier. Os bons, se é que existem, são dilacerados. Por muito tempo achei que fosse um bom, eternamente carregando a minha cruz de virtuose; mesmo quando agia contra as normas sociais, estava agindo conforme preceitos morais rígidos de mim mesmo. Ora et labora. Hoje recorri à atrocidade de olhar para mim mesmo: vi um monstro. Sim, não era uma Grace, senão o “filósofo” – as coincidências são aterradoras, e toda essa catarse de auto-revelação tenha forçosamente que ter se passado no momento em que ingressava, oficialmente, no domínio acadêmico da filosofia – sr. Tom Edison Jr. Sim, era eu, que sempre ajudei e nunca pedi nada, mas depois… Depois fui tão torpe quanto os outros, fui pior que os outros! Nojo e repulsa. Por que esse texto? O confessionário é o caminho para a redenção, e não nos iludamos quanto a presença destes apenas na religiosidade cristã: afinal, o que é um divã de terapeuta senão um confessionário com dízimo elevado? Sim, a confissão nos redime, de algum modo. Uma pessoa que comete uma torpeza, se a reconhece como tal, anseia, sobretudo, por revelar a alguém – partilhar sua chaga, talvez?. Em tempo, a cultura cristã nos tem muito a falar sobre isso, lembremos Romanos 7, 19: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.” Aí está, o mal habita em todos nós, por mais que não o desejemos, é o que revelam nossas ações. E onde reside o mal? Em Anticristo, She, a mulher-arquetípica, arranca seu clítoris: se ela não pode mais sentir prazer, não tem mais instintos que a desviem do caminho do bem. Será que, então, nossa natureza animal é o mal? Se a cultura é a negação da natureza, então, a cultura é o bem. Mas não creio; o mal está antes do prazer, antes do instinto, mora no próprio cerne do animal consicente: mora na Vontade. Enquanto tivermos a Vontade, rastejaremos em vômito e podridão.

Sempre preguei, sob um viés existencialista, que temos que carregar nossas ações como nosso fardo; lidar com elas e assumir responsabilidade é o dever do homem. Pois bem, ao modo de Raskólnikov, anseio pela chibata; no entanto, diferentemente dele, reconheço-me culpado. Sem a redenção perecerei.

Dos aspectos inauditos e da experiência cotidiana: crônica de morte vivida.

fevereiro 8, 2010 - 3 Respostas

ADEUS.

vuelvo ao sur

fevereiro 4, 2010 - 5 Respostas

Diretamente de Bariloche: passei na USP, caralho! (and no one – even myself – fuckin´ cares)

Adiós porteño.

Adiós, muchachos

janeiro 21, 2010 - Uma resposta

Algumas horas me separam do voo que levar-me-á à América Espanhola. Chove. Meu temor desses pássaros metálicos, a quem chamamos aviões, se acentua. Lembremos daquele poema de Drummond, Morte no Avião,: “caio verticalmente e me transformo em notícia”. Espero que não, mas o pensamento mórbido não me sai da mente.

É uma saída temporária, de fato. Penso que esse tempo nada significaria para um homem antigo. É curioso ver como a aceleração das coisas nos tornou impacientes; quem hoje senta por 6 horas para assistir uma ópera? Filmes de 2 horas já são demasiado longos, cansativos. Não me perderei em divagações sociológicas, passemos ao plano concreto: deixo tudo tão irresolvido por aqui. Será que é possível resolver-se algum dia? Ou a morte sempre será um fim súbito, antecipado. São duvidas que me percorrem enquanto digito esse texto. Mas… estou escrevendo como se fosse morrer? Não, realmente; mesmo essa viagem – e que curta duração! – já deixa em mim a sensação que poderia ter sido realizada quando estivesse mais ajeitado. Mas não, é assim que tem que ser. Adiós, muchachos.

“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

[...]

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”

(C.D.A.; A Rosa do Povo)

101 – Vinícius, Velho, Saravá!

janeiro 17, 2010 - 4 Respostas

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Excerto de Soneto da Separação, Vinícius de Moraes.

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

Dialética, idem.

Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Excerto de Ausência, idem.

Apontamento

janeiro 15, 2010 - Deixe seu recado!

É uma ácida ironia – divina ironia! – que Deus que anteponha a euforia à queda; mantendo, inclusive, suas proporções.

Poética do Aborto

janeiro 13, 2010 - Uma resposta

Após o baixar da poeira, os sedimentos vão depositando ao fundo-inferno – fazendo uso da expressão pessoana – de minha alma. Tratar-se-ia de muita falta de cautela constatar sua morte. Não: os resquícios do aborto precoce, fragmentos esparsos de algo que não sei bem, vão reunindo-se em um lodo roto de incomparável negrume. Ele está ali, recompondo-se; pode estar elipsado por hora, mas a qualquer chamado, a qualquer coisa que o rememore (o tato, uma palavra…), a isso ele atenderá de prontidão, estenderá seus braços e espalhará sua peçonha pela maldita carne tal chaga intermitente… O vômito de toda essa podridão é impossível; uniu-se de tal modo simbioticamente a mim que seu fim representa, também, o meu fim.

Meditações – Tema: Senso Crítico (ou falta de)

janeiro 12, 2010 - Deixe seu recado!

I

Inventarei uma estatística: proponho que 90% das pessoas são medíocres. O ambiente social físico e grilhões de educação e culpa nos impedem a franqueza. Sejamos francos textualmente, então. Não preciso bem a razão, mas o ambiente virtual parece acentuar a imbecilidade das pessoas. Aliás, há pessoas que, se são muito capazes na “vida real”, mostram-se verdadeiros animais nas redes de computadores. É inútil; a internet condensa informação em proporção inversa à qualidade desta.

Mas tudo isso é muito lógico. O que são redes sociais? Comunidades de auto-inflação, egotismo, narcisismo barato, exegese burra de si mesmo. “Eu ouço a banda x”, “Adoro o filme Y”; por fim, o mais execrável: “Li o livro Z”, ou mesmo “Livro Z”. É analisando esse tipo de lugar que me sinto no direito de concluir a completa falta de sentido desse tipo de interação. No que constitui a “discussão” que toma parte nesses lugares? Geralmente algumas enquetes idiotas, perguntando futilidades acerca de casais ou qualquer besteira assim, relacionada ao livro; tópicos falando como o livro mudou a vida de fulano, que se identificou muito com tal personagem – se o livro é um retrato crítico e ácido de alguma coisa, ainda há o imbecil que, mesmo assim, fará esse tipo de comentário – etc., etc. Busco aquele leitor que veja a obra não com admiração digna de culto, mas com um olhar desconfiado e um sorriso sarcástico. Estamos perdidos?

Meditações – Tema: Amor.

janeiro 10, 2010 - 5 Respostas

I

O amor em perspectiva nitzscheana: um embate, jogo de poder, o amar mais o desejo do que o objeto desejado – à Tristão e Isolda, conto e ópera de Richard Wagner -. Já em Huxley: não há experiência humana não individualizante, salvo os jogos amorosos; nestes, os amantes desesperadamente buscam uma união intensa, um sentir uno. São opiniões contrárias? Não creio… A sublimação, o elevar-se acima do individual, se dá justamente nesse jogo de poder – tendo em vista que em Nietzsche o aspecto é mais amplo, e Huxley parece referir-se mais especificamente ao ato do amor -. É possível, inclusive, traçar um paralelo com a metafísica da estética de Schopenhauer: a ordem de miséria do mundo, erigida na Vontade e na Representação, é dissolvida quando o indivíduo faz uso do gênio para alcançar um estado de contemplação supra humano, no sentido de que excede o seu próprio eu, tornando-se apenas “olho cósmico”, observador absoluto; por esse viés, no amor também se quebra a individualidade; ainda que não “olho cósmico”, mas união binomial de indivíduos.