Da tragédia

Setembro 19, 2009 - 4 Responses

De modo genérico, é possível definir a Tragédia como um caso particular do embate homem versus Natureza – esta composta pela somatória de todos elementos, orgânicos e inorgânicos, que excedem-lhe o corpo -, onde o indivíduo é esmagado. A comédia, em contraponto, seria uma exaltação à felicidade: nada importa e tudo é risível.

Via de regra, prefigura a existência humana um caráter tragicômico, cabendo ao vivente balancear mais uma ou outra face da moeda. Ressalto, no entanto, que a clarividência é atributo de Édipo e Hamlet.

João e o Medo

Setembro 18, 2009 - 3 Responses
“Em verdade temos medo”
Carlos Drummond de Andrade

Há algum tempo me deparei, numa dessas execráveis publicações semanais de variedades que circulam pelo Brasil, uma inspiradora história de sacrifício, renúncia e bravura. Ou, pelo menos, era a caracterização atribuída pelos editores da revista.

Trata-se de um sujeito que – como tantos outros conterrâneos -, atende por João. João, natural de São Paulo, assistia em Campinas, aonde cursava Engenharia na Universidade Estadual de Campinas. Isto até quando sua mãe sofrendo do coração – o material, não lírico -, é internada. Naturalmente, dedicado filho que era, tranca o curso e ruma à terra natal, objetivando acompanhar a progenitora. Até aí, nada insólito nem digno de gasto de tintas, mesmo tintas destinadas à páginas fúteis etc. O que sucede, pois, é que estampou o garoto nas hagiografias da classe B desta república: João entrega-se loucamente, ao lado do leito materno, aos estudos. Almeja com uma vaga no curso de medicina da Universidade de São Paulo, que consegue com louvor, obtendo a maior pontuação no exame.

Que bela e revigorante narrativa à guisa do bom burguês, crente no trabalho e no progresso da nação! Quase noto, no fundo, os acordes de Raul Seixas, implorando novas tentativas, enquanto comoventes slides narram a história do garoto… Eu; cínico, ressentido e fracassado, enxergo só uma tragédia com péssimo herói. Em verdade, Joãozinho é, aos meus olhos cansados, um desses pastores – à Calvino -, destituído de Deus. Joãozinho tem medo; medo da Morte – sua e de sua mãe -, do conceito metafísico, fisiológico e moral da Morte – como todos nós? -.

A auto-flagelação, o rigor jesuítico, o louvor calvinista ao trabalho e a correção moral. Por fim, a vida extremamente regrada. Eis o sinal do Édipo apavorado, Mersault que abraça o capelão no corredor da morte. Um herói pequeno-burguês que prefigura o decadentismo religioso numa perspectiva pós-nietzscheana: um religioso à moda do cristianismo após a morte do Altíssimo.

Ao final de meu amargo “filosofar com o martelo” – destilação de veneno resultante da inveja, dirão alguns, com um sorriso sarcástico no rosto -, deixo apenas um humilde questionamento: a mãe de João, felizmente, sobreviveu. Se, no entanto, o Destino não a tivesse poupado, não seria melhor que esta tivesse seus últimos instantes d’outro modo que não observando o filho folhear tratados sobre o sistema excretor dos nematelmintos?

Sarapalha

Setembro 8, 2009 - 3 Responses

Dos contos que li – assim como minhas leituras em todos os outros gêneros, não foram muitos -, digo, com certa segurança até, que o mais belo em todos os sentidos cuja beleza pode ser aferida, é Sarapalha, de João Guimarães Rosa, que compõe a coletânea entitulada Sagarana.

Sarapalha carrega a marca da pena rosiana, que é o apreço pela estética na linguagem, tanto em expressões orais como em neologismos, cadência etc. Mas não se destaca exatamente por isso, mas pela sua completude, pela sua clarevidência da alma humana, esmagada por um mundo indiferente, por um destino que pesa e pela sua própria contradição. A história dos dois primos que, juntos, aguardam a morte, agonizando infectados pela malária, enquanto lembram-se da mulher que, no ápice do texto descobre-se, ambos amaram, é também a história do homem. Primo Ribeiro amava Luisinha, que foge com outro. Seu sentimento é um misto de ódio, tristeza e melancolia: deveria perseguir os dois fugitivos e matá-los? Mas ele mataria a mulher que ama? Não lhe resta mais nada, agora, senão lembrar o tempo passado na medida que a maleita lhe come a saúde, os tremores físicos são também d’alma – o que ele próprio evidencia: Se ela chegasse, até a febre sumia.” -. É durante essas revelações que seu único amigo e companheiro que ficara, suportando também a chaga da doença, primo Argemiro, à quem, pouco antes, ele confessara que era melhor até que um “irmão ou um filho”, resolve confessar-lhe que também amara a mesma mulher, e talvez por isso, inicialmente, tivesse permanecido. Aí está o tema da dureza da Verdade, recorda Nietzsche em seu famoso questionamento:“Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito?”. Isto é, os dois acabavam-se juntos e certos apenas da confiança que depositavam um no outro, mas uma palavra, uma confissão, foi acabar de destruir essa sólida construção. Nas entrelinhas lê-se uma máxima interessante, os relacionamentos humanos, por mais sólidos que aparentem, jazem sobre desgastados alicerces, ou mesmo um solo arenoso? Não é preciso dizer que Argemiro é enxotado da propriedade rural, ao que, não sem tristeza, ele obedece. É o preço da Verdade: por ela morre-se sozinho.

Enquanto vai embora, o confuso – dada conjuntura sentimental e fisiológica – Argemiro, reflete. Reflete sua falta de autocontrole, que o fez amar mesmo sabendo que era algo que nunca poderia ter, e mesmo se quisesse não teria por respeito ao primo, e, por último, talvez nem fosse tão desejável assim: “Talvez ela não fosse a moça mais bonita do arraial… E não era mesmo. Mas o amor é assim…”. Reflete sua falta de perspectiva, primeiro em vontade de não-ser, ânsia de um fim breve e definitivo: “Nunca mais? Nunca mais… Ai, meu Deus! Por mim era muito melhor não ter céu nenhum…”. Reflete, também, sua falta de perspectiva, ante a ordem que era a vida: “Ir para onde?… Não importa, para frente é que a gente vai!…”.

Termina, triunfal, com um elogio da contemplação, numa das mais belas e melancólicas passagens da literatura brasileira, onde o homem, em sua condição de miséria, condenado a contar sempre apenas consigo mesmo, ante o Destino que o esmaga, enxerga, não sem o característico sofrimento, a Beleza: “Mas, depois. Agora é sentar nas folhas secas, e agüentar. O começo do acesso é bom, é gostoso: é a única coisa boa que a vida ainda tem. Pára, para tremer. E para pensar. Também. Estremecem, amarelas, as flores da aroeira. Há um frêmito nos caules rosados da herva-de sapo. A herva-de-anúm crispa as fôlhas, longas, como fôlhas de mangueira. Trepidam, sacudindo as suas estrelinhas alaranjadas, os ramos da vassourinha. Tirita a mamona, de fôlhas peludas, como o corselete de um cassununga, brilhando em verde-azul. A pitangueira se abala, do jarrete à grimpa. E o açoita-cavalos derruba frutinhas fendilhadas, entrando em convulsões.

– Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito p’r’a gente deitar no chão e se acabar!…”

Êxtase e triunfo

Setembro 4, 2009 - Leave a Response

“É preciso imaginar Sísifo Feliz.

O Mito de Sísifo, Albert Camus.

Escalou o cume de si mesmo o conquistador, soltando no topo um rugido que ecoou pelo mundo inerte. Não; a utilidade de seu feito não era de modo algum comemorada, simplesmente não existia – urrava, sim, pela constatação de sua própria força, que, como ele, era estéril -. Encontrou na falta de fim um fim e agora era livre, subjulgou Deus e os deuses e agora era, ele mesmo, Deus: o assassínio mais belo, o do próprio Pai, que transfigura o horrendo ser que o excerce no próprio assassinado. Mata-se Deus para tornar-se Ele. A existência divinizada, a própria impotência perante a um mundo indiferente que ele afirma e aceita apenas por desprezo e raiva. Por vingança. Seria justo se fosse de outro modo… Justo?

sub specie aeternitatis

Agosto 19, 2009 - 5 Responses

A história é cíclica, assim como a filosofia, a literatura, etcétera. Pensam os iludidos e ingênuos que viram pela primeira vez a face da Verdade, ignoram que pisam pegadas fossilizadas de infinitos homens: o ídolo que verificam não é senão um desgastado e sempiterno símbolo: chama-se Universo. Nada há além, tampouco aquém, dele; o que pouco importa, visto a dificuldade – impossibilidade? – de sua tradução (e todo conhecimento é tradução).

constatação política

Agosto 19, 2009 - 8 Responses

Um artigo jornalístico de João Pereira Coutinho, conforme publicado na Folha de São Paulo de 17 de agosto, segunda-feira; assim como a recente “lei anti-fumo”, que agora compõe a legislação da mesma cidade – lei, aliás, sobre a qual versava o ensaio -, me abriu os olhos para uma terrível verdade: somos todos neo-facistas.

Se agora o anti-semitismo não vigora mais com a mesma força, subtituimo-lo por uma ditadura da auto-preservação. Aprovamos que nos cerceiem a liberdade para vivermos “melhor”, somos pecadores em busca de expiação penal.

Segunda Intempestiva Itabirana

Agosto 9, 2009 - 2 Responses

Ingrata coincidência, uniu

- desuniu? – distintos,

mas iguais em muito,

    ainda que separados por grilhões.

.

Tua Vontade: soberana.

Não és objeto de fruição

estética. Não posso contemplar-te

sem que me fira os olhos.

.

Tampouco és o Sublime – Alto e Nobre -

Não me oferece perigo,

a não ser o que advém de ter

perdido toda esperança.

.

Ingrata palavra, não maledicência,

mas Verdade, crua, que fere

(arranca de Édipo as órbitas)

leva-me desta intempérica planície.

Elegia da injustiça

Agosto 8, 2009 - 4 Responses

Não existe justiça – só eu.

Fala, resoluta, a Morte

(ou melhor, seu emissário,

porque a morte não é senão

abismo e silêncio.)

.

E a cada rotação

segue a perpetuar as injustiças

açoitar alguns, afagando outros

esse inditoso planeta chamado Terra.

.

E os injustiçados:

gritam, choram; agem, não agem

cada ação tão diversa da outra

e igualmente inútil à outra.

.

Não percebem pois

que é só por causa desse reles sacrifício

que existe a felicidade?

Visto que esta não é senão a vitória,

que pressupõe um perdedor.

.

Pouco importa que o fado lhes legue olvido

hão de pensar, algum dia, os injustiçados:

abençoado fui, pela Fortuna:

fui felicidade em um mundo de tristeza”.

obs: a colocação dos pontos visa separar as estrofes, visto que o wordpress parece ser contrário à inserção de linhas brancas nos textos que veicula.

O resto é silêncio (e imagem).

Julho 28, 2009 - 3 Responses

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, tem uma concepção sobre a arte, e a estética de modo mais amplo, bastante interessante. A arte seria a mais alta forma de comunicar algo, no sentido que esta deveria purificar-se da Vontade, eliminando os resquícios do objeto enquanto relacionado com outros objetos e inserido no contexto de casualidade do tempo, espaço etc. Cabe ao artista, o gênio, a habilidade de abdicar da própria existência, ainda que momentaneamente, para converter-se numa espécie de olho cósmico, que enxergaria através do véu de Maia a essência pura dos objetos, a Ideia – sua forma platônica ou coisa-em-si kantiana.

Nesse sentido, é interessante estabelecer um paralelo com a fotografia como arte, visto que seria anacronismo esperar qualquer comentário nesse sentido do filósofo. Henri Cartier-Bresson, fotógrafo francês, dizia que, enquanto a foto limitava-se há um momento, pintura era meditação. A foto, então, pode ser entendida como a eternização de um momento enquanto independente do tempo, da casualidade etc. posto que é estática. O momento captado expressa, através da forma e da estética, uma infinitude de aspectos que seria inimaginável em outro veículo, um filme por exemplo. O momento é, talvez, a própria Ideia, que fala por si e não é nada além de si. Ainda sim, é digno de questionamento a escolha do olhar. O trabalho autoral do fotógrafo consiste justamente na captação da imagem segundo sua própria óptica, cabendo-lhe uma série de escolhas que faz da fotografia uma expressão individual. É possível, então, falar em gênio – supressão da Vontade do ser para captação essencial do objeto pela intuição -, em fotografia, cuja expressão artística estaria tão somente na captação individual do momento? A resposta que encontrei a essa indagação é sim. É possível falar se considerarmos o olhar do fotógrafo uma captação além de sua própria personalidade, ou seja, que transcenda o artista como pessoa; ao modo da crítica de Harold Bloom em cima de Hamlet, quando este afirma que a personagem shakesperiana sobe cumes mais altos do que o próprio autor poderia escalar, fugindo inclusive ao controle deste.

Solilóquio Hamletiano

Julho 25, 2009 - 6 Responses

Combatamos o augúrio,

e todo o resto que habita

esse insólito descampado:

preâmbulo do país desconhecido.

Mas que é que, afinal,

se conhece? – Nada.

Mergulha, dançando, Yorick,

no infinito de treva do abismo.