Dos contos que li – assim como minhas leituras em todos os outros gêneros, não foram muitos -, digo, com certa segurança até, que o mais belo em todos os sentidos cuja beleza pode ser aferida, é Sarapalha, de João Guimarães Rosa, que compõe a coletânea entitulada Sagarana.
Sarapalha carrega a marca da pena rosiana, que é o apreço pela estética na linguagem, tanto em expressões orais como em neologismos, cadência etc. Mas não se destaca exatamente por isso, mas pela sua completude, pela sua clarevidência da alma humana, esmagada por um mundo indiferente, por um destino que pesa e pela sua própria contradição. A história dos dois primos que, juntos, aguardam a morte, agonizando infectados pela malária, enquanto lembram-se da mulher que, no ápice do texto descobre-se, ambos amaram, é também a história do homem. Primo Ribeiro amava Luisinha, que foge com outro. Seu sentimento é um misto de ódio, tristeza e melancolia: deveria perseguir os dois fugitivos e matá-los? Mas ele mataria a mulher que ama? Não lhe resta mais nada, agora, senão lembrar o tempo passado na medida que a maleita lhe come a saúde, os tremores físicos são também d’alma – o que ele próprio evidencia: “Se ela chegasse, até a febre sumia.” -. É durante essas revelações que seu único amigo e companheiro que ficara, suportando também a chaga da doença, primo Argemiro, à quem, pouco antes, ele confessara que era melhor até que um “irmão ou um filho”, resolve confessar-lhe que também amara a mesma mulher, e talvez por isso, inicialmente, tivesse permanecido. Aí está o tema da dureza da Verdade, recorda Nietzsche em seu famoso questionamento:“Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito?”. Isto é, os dois acabavam-se juntos e certos apenas da confiança que depositavam um no outro, mas uma palavra, uma confissão, foi acabar de destruir essa sólida construção. Nas entrelinhas lê-se uma máxima interessante, os relacionamentos humanos, por mais sólidos que aparentem, jazem sobre desgastados alicerces, ou mesmo um solo arenoso? Não é preciso dizer que Argemiro é enxotado da propriedade rural, ao que, não sem tristeza, ele obedece. É o preço da Verdade: por ela morre-se sozinho.
Enquanto vai embora, o confuso – dada conjuntura sentimental e fisiológica – Argemiro, reflete. Reflete sua falta de autocontrole, que o fez amar mesmo sabendo que era algo que nunca poderia ter, e mesmo se quisesse não teria por respeito ao primo, e, por último, talvez nem fosse tão desejável assim: “Talvez ela não fosse a moça mais bonita do arraial… E não era mesmo. Mas o amor é assim…”. Reflete sua falta de perspectiva, primeiro em vontade de não-ser, ânsia de um fim breve e definitivo: “Nunca mais? Nunca mais… Ai, meu Deus! Por mim era muito melhor não ter céu nenhum…”. Reflete, também, sua falta de perspectiva, ante a ordem que era a vida: “Ir para onde?… Não importa, para frente é que a gente vai!…”.
Termina, triunfal, com um elogio da contemplação, numa das mais belas e melancólicas passagens da literatura brasileira, onde o homem, em sua condição de miséria, condenado a contar sempre apenas consigo mesmo, ante o Destino que o esmaga, enxerga, não sem o característico sofrimento, a Beleza: “Mas, depois. Agora é sentar nas folhas secas, e agüentar. O começo do acesso é bom, é gostoso: é a única coisa boa que a vida ainda tem. Pára, para tremer. E para pensar. Também. Estremecem, amarelas, as flores da aroeira. Há um frêmito nos caules rosados da herva-de sapo. A herva-de-anúm crispa as fôlhas, longas, como fôlhas de mangueira. Trepidam, sacudindo as suas estrelinhas alaranjadas, os ramos da vassourinha. Tirita a mamona, de fôlhas peludas, como o corselete de um cassununga, brilhando em verde-azul. A pitangueira se abala, do jarrete à grimpa. E o açoita-cavalos derruba frutinhas fendilhadas, entrando em convulsões.
– Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito p’r’a gente deitar no chão e se acabar!…”