
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death
(Time, Pink Floyd.)
Kim Ki-Duk é um dos cineastas que formam a nova geração do expoente cinema sul-coreano. Destoa um pouco do que virou regra já nesse nicho: a violência exagerada e os combates sangrentos. Não, não digo que seus filmes não são violentos – na realidade talvez sejam até mais violentos que os de seus colegas, a seu próprio modo – assim como Dolls talvez seja um dos filmes mais violentos de Takeshi Kitano, mesmo sem fazer uso de brutalidades, gangues, etc. Fato é que inegavelmente seus filmes são mais parecidos com aquilo que geralmente se tem como “cinema de arte”, ainda que o termo seja controverso.
Uma das temáticas do diretor é o já universalmente discutido tema da passagem do tempo. Em duas grandes películas ele explora esse tema por diferentes ângulos. Primeiramente há “Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom” (Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring, 2004). Este narra a vida de um aprendiz de monge budista que vive num templo sob um lago, fazendo analogia com as estações do ano. Tudo é cíclico, porém algumas ações são irreparáveis. Quando o protagonista ainda é jovem (a primavera), por diversão amarra pedras a alguns animais. O mestre, observa atentamente e quando seu aprendiz dorme, amarra uma pedra a ele também, prometendo só desamarrá-la quando ele voltasse, achasse os animais e libertasse-os novamente. Sucede que voltar atrás de algumas ações é impossível: alguns dos animais que o garoto tinha amarrado já haviam morrido. Nesse contexto to tempo não é senão uma máxima validando a liberdade do ser, numa perspectiva existencialista. O indivíduo é livre, mas deve arcar com as consequências de suas ações ainda no mundo terreno. Mas além disso, o tempo é também uma eterna sucessão de inevitáveis e incessantes repetições. Após o inverno, surge novamente a primavera; igual, mas, como real, única e diferente. “Nada torna, nada se repete, porque tudo é real “, como diria Alberto Caeiro, em um verso que aparentemente contradiz a perspectiva de Ki-Duk, mas numa análise mais cuidadosa é a mesma visão do diretor.
Shi Gan (Time, 2008) é a segunda investida cinematográfica que discorre sobre o tema. Em conjunto com o outro nota-se as projeções antropocêntricas do homem no Tempo: se a passagem do outro era lenta e tranquila, nesse – passado na metrópole Seul – é o oposto, que coexiste no mesmo mundo. O tempo “pós-moderno”, que já houvera sido preconizado por Marx, na famosa afirmação “tudo que é sólido se desmancha no ar”, depois reaproveitada como título da obra homônima de Marshal Berman. Sim, tudo é metamorfose, o presente não é mais duradouro, e muda-se a si próprio com a mesma felicidade que se muda de roupa ou celular. Somos apresentados a um casal que completa o segundo ano de relacionamento, e começa a nascer a desconfiança por parte da mulher. O “Iago” em questão não é uma pessoa física, tampouco um objeto material, mas a falta de segurança a que se segura em qualquer coisa, inclusive o próprio corpo. Este, ainda que dotado de beleza, enjoa se permanece o mesmo. Essa é a reflexão de Se Heh, que decide então mudar sua própria face por meio de uma brutal cirurgia plástica para agradar o namorado (mesmo sem esse concordar com a mórbida ideia). A tragédia que segue é só projeção desse infeliz mote a que seguimos com esmero. É inevitável recordar Rosseau, citado pelo mesmo Berman:
“eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas perturbem meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual meu lugar. (…) vejo apenas fantasmas que rondam meus olhos e desaparecem assim que os tento agarrar.”
A reflexão do personagem principal da novela A Nova Heloísa, que passara do campo para a cidade, também se faz presente no filme: o tempo é polimórfico, e depende da conjuntura que o cerca. Ainda que os personagens tipicamente urbanos estejam mergulhados nessa rápida sucessão de tentações e consumo que os cercam, há uma frequente visita a um local afastado da cidade, o “Parque das Esculturas”. Esse lugar é contrário a cidade, e o fato de possuir esculturas é providencial: estas são imutáveis, independente do estado e dos personagens que compareçam lá, as esculturas permanecem quase iguais. Quase, porque, como tudo, elas não são imunes a ação do tempo, apenas menos susceptíveis, já que esse ainda as muda. A passagem do tempo não é opção.
Ainda não li, mas por Deus, você tá indo longe, hein? hehehe
Em que sentido? E, isso é bom ou mau? hahah =P
Po, crítica de filmes coreanos, até!
Ah tá. Ok, admito que pode ter passado um pouco dos limites aceitáveis. Mas assim que é legal! hahaha
Sem essa de limites aceitáveis, rapaz, o céu é o limite!
Na verdade, fiquei foi impressionado:
“Nesse contexto to[sic] tempo não é senão uma máxima validando a liberdade do ser, numa perspectiva existencialista.”
Cada vez mais filósofo uahauhua /fiu
teste
po, mano, vamo movimentar isso aqui, né??
não estava no brasil, mereço descanso, né! hahaha
enfim, de volta a ativa. Estou fervilhando ideias. Ou não. Veremos.