Elogio da servidão

Aristóteles afirmava que havia a classe dos senhores e a dos escravos. Se hoje já não se aceita mais essa tese, digo que ele não estava de todo errado, absolutamente. Porém, não necessariamente as aparências de quem é escravo e quem é senhor estejam corretas, tampouco os usuais métodos de classificação.

O fato: amamos o tédio mortal da rotina, amamos esquecermo-nos do próprio intelecto para executar incessantemente qualquer atividade banal e mecânica. Por mais que reclamemos, essa reclamação tem, também ela, caráter cotidiano. A liberdade é chagásica: os livres tem inchado seu coração, que aos poucos definha e entra em falência. Ser livre não é fazer o que quiser, quando quiser, mas suportar o próprio destino e, sobretudo, pensar.

Grande indício disso são os “passa-tempos”. Etimologicamente, a palavra já diz tudo o que precisamos saber. Se há tempo “livre” – que no caso tem por significância não ser ocupado por atividade inerte -, rapidamente recorremos a esses analgésicos existenciais, para nos privar da insuportável liberdade, da insustentável leveza do ser, fazendo uso do léxico de Milan Kundera. Cada vez mais o espírito livre entra em declínio, o que antes era caracterizado por atividade essencialmente intelectual, artística, “nobre; as artes de modo geral, a filosofia, etc. Passa para a esfera dos passa-tempo. Livros não servem senão para atordoar a percepção da realidade, filmes inocentes e cheios de explosões aceleram o tic-tac do ponteiro, e os jogos, esses que mal se desenvolveram como arte, se tornam um novo tipo de labor, permeados por objetivos mesquinhos de acúmulo de bens virtuais e fictícios.

A liberdade também não é um elixir da incessante felicidade, esse mito burguês que nunca foi atingido, mas condena os que o negam como leprosos. O sofrimento, esse sim é o eterno companheiro do espírito livre, que sabe como ninguém, no entanto, o verdadeiro gosto da felicidade. Aquela que não é falsa, nem regada de Prozac (outra invectiva contra o livre arbítrio, diga-se de passagem).

Sabiamente conjecturou Ivan Karamázov, por meio de um Cardeal fictício que ele inventara: “Não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se.”

One Response

  1. “Escravo(s) da vida.” – expressão de blogueiros anônimos e poetas menores.

    Mas é.

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