Curtas

Existem uns dias que o ser humano deve se dedicar unicamente à culpa, qualquer esforço para vencer esse impulso é inútil e fadado ao fracasso. Há muito a ser feito, o tempo é relativamente escasso; a vida, também. Entretanto, nesses dias onde o ócio vence qualquer expectativa de ação, tudo que se consegue fazer é prolongar ações inúteis no sentido – inconsciente, claro – de esgotar o próprio tempo. O sentimento de culpa que acompanha esse estado de espírito é terrível. Sorte que nós, humanos, somos dados ao masoquismo. Como o interlocutor pode perceber, esse é um desses dias na vida do penitente autor desse texto.

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As vezes acho que a extrapolação humorística da sentença de Lavosier para o mundo das artes (“nada se cria, tudo se copia”) é verdadeira. Escrevi há um certo tempo para esse blog um texto com três excentricidades para serem realizadas por um espírito aventureiro em uma metrópole qualquer. Pois, dia desses, lendo Drummond, encontro um texto muito semelhante, baseado na mesma premissa, mas com caráter narrativo. Chama-se “Os Excêntricos”, e segue abaixo:

1

Chega a uma fazenda, apeia do cavalinho, ô de casa! Pede que lhe sirvam leitão assado, e retira-se, qualquer que seja a resposta.

2

Diz: “Vou para o Japão” e tranca-se no quarto, só abrindo para que lhe levem alimento e bacia de banho, e retirem os excretos. No fim de seis meses, regressa da viagem.

3

Cola duas asas de fabricação doméstica nas costas e projeta-se do sobrado, na certeza-esperança de vôo. Todas as costelas partidas.

4

Apaixona-se pela moça, que casa com outro. Persegue o casal em todas as cidades para onde este se mude. O marido, desesperado, atira nele, pela janela. No outro lado da rua, de outra janela, dá uma gargalhada e desaparece: a bala acerta no boneco que o protege sempre.

5

Data as suas cartas de certo lugar: “Meio do mundo, encontro das tropas, idas e vindas”. Ao terminar, saúda: “Dãodarãodãodão” e assina: “Dr. Manuel Buzina, que não mata mais amofina”.”

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Dos Verissimos, conhecia melhor o Luís Fernando. De seu pai havia lido apenas, em rápidos três dias, o fragmento mais popular de “O Tempo e o Vento”: “Um Certo Capitão Rodrigo”, que a época muito me agradara. Li nessa última semana mais um: “Olhai os Lírios do Campo”, livro de caráter realista bastante interessante, apesar de, segundo o próprio autor, ser em partes exageradamente salvacionista, e, minha opinião agora, talvez um pouco puritano. Diversas passagens são dignas de nota, seja pela beleza ou pelas profundas verdades que revelam. Entre elas, gosto de lembrar de uma em particular: “[...] O mundo seria insuportável se as criaturas tivessem boa memória”.

9 Responses

  1. Ora ora ora

  2. Isso é bom ou ruim? heheh :P

  3. Em tempo, odeio esse emoticon de =p do wordpress.

  4. É o mesmo emoticon do PhpBb. E não era bom nem ruim, nem tinha a ver com o post, mas com o blog.

    In topic, então, as hipóteses do Drummond são divertidas. A alusão ao “tudo se copia”, porém, parece injusta.

    E do Veríssimo, só li Incidente em Antares.

  5. Sou curioso por esse.

  6. Se puder, leia.

  7. Drummond revela-se mais excêntrico que você. =D

    Não é uma crítica.

  8. Ao Drummond?

  9. Principalmente não.

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