A alguém que jamais lerá.
I
A tarde que havia passado servira perfeitamente como prelúdio para a treva imensa que se instalou, e que eu contemplava pela janela recém aberta, enquanto – paralelamente – bebericava uísque em doses homeopáticas. Através do destilado, a melancolia lentamente ia tomando conta de meu fatigado espírito quando, de súbito, algo chamou minha atenção. Numa arvore que se erguia a poucos metros da janela – vale alertar o leitor que encontrava-me numa casa de campo – havia um magnífico pássaro preto, cuja imponente plumagem era de um negrume que ofuscava a própria escuridão noturna. Pousado um segundo olhar sobre o animal, notei que por sob seu peitoral escorria, em quantidade, um espesso fluido rubro. Conclui que ele havia sido ferido e agonizava, com o espectro da morte à espreita.
Tamanho havia sido o espanto que a ave impregnara em mim que decidi prover ajuda de algum tipo a ela, de modo a extirpar-lhe a certeza de óbito eminente. Tal impulso não foi, de forma alguma, uma comoção piedosa. Na verdade, sentia que o mundo estaria perdendo seu valor se aquela valorosa besta abandonasse a existência.
Conforme me aproximei do pássaro, a fim de capturá-lo, ele, provavelmente já tomado de incerteza e desconfiança quanto ao futuro, certamente achou que eu aproveitar-me-ia da situação para devorá-lo. Mesmo ferido, num gesto ágil e de grande precisão bateu vigorosamente suas fortes asas e mergulhou na espessa massa negra da noite.
II
O acontecimento narrado, e provavelmente exagerado, por mim nada tem de insólito. Porém, depositou sobre meu coração uma chaga insuportável. Durante aquela e mais outras noites não consegui pregar os olhos. Os mais ingênuos pensarão que eu lamentava pelo destino de olvido que a ave muito possivelmente iria encontrar; outros acharam que eu padecia por ter visto a Beleza e por ter certeza que nunca mais a veria, justamente quando havia me aproximado tanto dela. A razão a que dou mais crédito não é nenhuma dessas. O medo terrível que se instalara em mim não era de que o animal tivesse passado aos planos etéreos, mas que, em realidade, nunca tivesse de fato existido.
Que baita idealização do “rubro-negro” /fiu
Ótimo texto.
uahauhuaua cale-se. /assoviando
Valeu.
Curti.
“Though thy crest be shorn and shaven, thou,” I said, “art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night’s Plutonian shore!”
Quoth the Raven, “Nevermore.”
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as “Nevermore.”
- trechos de “O Corvo”, de Edgar Allan Poe
Foi uma referência direta ao Poe né. Tinha até pensado em botar essa parte como epígrafe:
“Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before”