
Não consigo me recordar de períodos em minha vida em que aceitei a idéia de um deus onipresente, ciente e potente. Quanto menos de Deus, no entendimento cristão da abstração. Não obstante, sempre fui grande admirador da arte sacra, em suas mais diversas formas. Desde obras materiais – como a Pietá de Michellangelo que ilustra o topo deste post, ou mesmo as igrejas e catedrais espalhadas pelo mundo -, como também as etéreas, ou seja, a música. Sendo grande admirador do cânone de Bach, não poderia ser diferente.
Dentre as peças compostas diretamente para a liturgia – missas, cantatas, etc. – tenho uma predileção especial pela categoria dos réquiens. Um réquiem é uma missa cristã, adotada por diferentes vertentes da religião, como uma missa para os mortos (Missa pro defunctis). Etimologicamente, a cerimônia recebe esse nome dado às primeiras palavras do intróito, usualmente: “Requiem aeternam dona eis”, do latim: “dá-lhes descanso eterno”. Não há maneira fixa para a composição de peças dessa modalidade, ainda que respeitem, certo modo, alguma estrutura.
Meu primeiro contato direto com um réquiem, ainda me recordo, foi certa vez quando assistia um tio jogar videogame. O jogo: Onimusha 3: Demon Siege; em certo momento era exibida uma animação de computação gráfica. Nela Paris era invadida por demônios que dilaceravam pessoas com requintes de crueldade regidos por um potente coral latino. A música não podia ser mais providencial, era o movimento Dies Irae (Dia de Ira), do potente e famosíssimo réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Acho que isso ilustra uma das faces desse tipo de obra. É uma obra que, sobremaneira, comunica a perda, com todas suas faces. Isto é, alguns réquiens são mais solenes, outros etéreos, e ainda há os que emanam fúria. Também levanta-se a suspeita do porque não é um tipo de composição popular hoje: na sociedade contemporânea recalca-se a morte, ainda que para isso tenha que ser feita uma incessante repetição desta – para torná-la banal? -. A perda não é mais valorizada, prefere-se escondê-la ou fingir que esta não existe. Nesse cenário, não é difícil constatar que peças musicais extensas e de caráter primariamente reflexivo estejam postas em segundo, ou até terceiro, plano; cenário este que prefiro ignorar frente a beleza dessas missas.
Nunca tinha reparado na música que tocava ao fundo desta cena tão brutal.
E, uau, que jeito mais incomum de ter-se um primeiro contato com um réquiem.
Bem, o que dizer?
Você está certo. Só acho demasiado otimismo considerar que essas obras cheguem a ocupar um plano na sociedade, quanto mais um segundo plano. De uma forma geral são bem esquecidas e os poucos que ainda lhes atribuem valor não chegam a exercer considerável influência no gosto dos demais, que, fatalmente, ignoram até sua existência. Na minha opinião, os réquiens morreram, no sentido de cumprir seu principal objetivo, o qual você já descreveu.
Eu posso estar falando besteira, mas estou considerando a realidade em que eu vivo, a realidade brasileira. Realmente não sei se em outros países há execução de missas fúnebres em velórios, à maneira de tempos anteriores, mas acredito que não.
Ah, e pra ser chato, introito não tem mais acento. uahuahuha
Temos todos até 2012 para nos adaptar à nova ortografia.