Da Imortalidade
Definida por alguns filósofos como a única questão que realmente importava, a morte é talvez o que mais precisamente define o ser humano. Em seu livro, “O Homem Bicentenário”, Isaac Asimov utiliza como protagonista um andróide que deseja tornar-se humano. Após uma longa odisséia, cada vez parecendo-se mais homem, o robô, já totalmente orgânico, chega a conclusão de que o último passo para alcançar o tão desejado status seria ser, também, suscetível à morte. Essa visão é abordada de modo parecido em um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges – O Imortal -. A conclusão que o autor chega é que o homem seria o único animal realmente mortal, visto que era o único que de fato tinha conhecimento de sua própria finitude.
Problema de cunho universal foi apaziguado por muitas religiões, que não davam a imortalidade como condição possível de ser alcançada mas como a própria essência humana. Mas e se a imortalidade fosse, de fato, uma escolha. “E se você pudesse tomar uma pílula da imortalidade?” – é com essa pergunta que Jason Rohrer abre um de seus artigos no site The Escapist. Ele desenvolveu um jogo eletrônico para fomentar a discussão. No jogo você é colocado em um cenário com alguns blocos de pedra que podem ser movidos de modo a formar pilhas, as quais você pode escalar. Além disso, um cronômetro marca 5 minutos no topo da tela: tempo que você tem de vida. Em cada uma das extremidades da tela há uma pílula, uma com uma caveira, que mata o personagem ao ser ingerida; outra com o símbolo do infinito e não é necessário discorrer sobre sua funcionalidade. Testei as três opções em três jogadas diferentes: primeiramente morri deixando o cronômetro correr enquanto explorava o cenário, nessa vez senti que não tinha visto tanto quanto gostaria de ver. Na segunda, tomei a pílula da morte; e passei toda a vida do personagem construindo uma torre para alcançá-la. Já na última alcancei a imortalidade e o cronômetro foi eliminado. Após um tempo olhando o cenário cheguei a conclusão que não havia mais nada para ser visto, e que a vida tornara-se apenas montes de tédio. Lembrei da pílula da morte e conclui então que era a única saída. Comecei a ir em direção à ela. O problema é que acabei ficando preso entre alguns blocos, sem saída tive que apertar alguns botões pra ver se algo acontecia – qual não foi a surpresa ao ver que consegui suicidar-me com um deles.
A abordagem de Rohrer é clara e direta: a vida após muito tempo torna-se repetitiva e perde-se o gosto por viver. Basicamente é o que concluí Borges em seu conto: o personagem, após tornar-se imortal bebendo a água de um rio sagrado passa o resto da vida procurando o rio que o condenaria de volta a morte. As quase infinitas possibilidades não o assustavam: ele tinha toda a eternidade pela frente. No caso do jogo, a limitação dele próprio no que oferece para ser feito pode ser um contra argumento: na vida não é assim; no entanto, o Imortal fartou-se da vida num mundo em constante mudança e com infinitas possibilidades. Por quê? Simples, o Imortal estaria condenado a ver tudo mais de uma vez, não haveria nada inédito, tudo seria uma repetição. Mesmo o que visto pela primeira vez seria amenizado, já que com certeza passaria-se de novo:
“A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso não vigoram para os Imortais. “
Após algum tempo, o conto é concluído de modo sublime:
“No dia 4 de outubro de 1921, o Patna, que me conduzia a Bombaim, teve que fundear em um porto da costa eritréia.1 Desci; lembrei-me de outras manhãs muito antigas, também diante do mar Vermelho, quando era tribuno de Roma e a febre e a magia e a inação consumiam os soldados. Nos arredores, vi um caudal de água clara; provei-a, levado pelo costume. Ao subir à margem, uma árvore espinhosa me lacerou o dorso da mão. A inusitada dor me pareceu muito viva. Incrédulo, silencioso e feliz, contemplei a preciosa formação de uma lenta gota de sangue. De novo sou mortal, repeti a mim mesmo, de novo me pareço com todos os homens. Nessa noite, dormi até o amanhecer. . [...]
Quando se aproxima o fim, já não restam imagens da lembrança; só restam palavras. Não é estranho que o tempo tenha confundido as que alguma vez me representaram com as que foram símbolos do destino de quem me acompanhou, por tantos séculos. Eu fui Homero; em breve, serei Ninguém, como Ulisses; em breve, serei todos: estarei morto. ”
Portanto, em frente ao dilema de Rohrer eu responderia: não sei. Mas é bom lembrar de nossa impotência quanto à isso, faço-o sob o olhar de Alberto Caeiro:
“Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos. “
Links:
http://www.escapistmagazine.com/articles/view/editorials/gamedesignfriday/4966-Immortality
O Imortal – Jorge Luis Borges
http://conselheiroacacio.wordpress.com/2008/08/19/o-imortal-jorge-luis-borges/

Interessante o debate promovido. Também já falei várias vezes da morte ou do eternidade do homem no meu blog.
Logo nas primeiras linhas me lembrei de Camus, que em seu O MITO DE SÍSIFO principia afirmando que o problema de se matar ou não tornou-se central na Filosofia na primeira metade do século XX.
Assista Asas do Desejo (Wings of Desire): nele, existe um anjo – imortal – que almeja à condição de humano para saber o que é o amor e como seria morrer…
Pessoalmente, discordo de que “o homem seria o único animal mortal”, como declarado ainda mais ou menos no começo da matéria. Justamente o contrário: como este cria a polaridade morte/vida eterna é o único que pode ser considerado os dois – mas em última instância o eterno, porque a morte é uma chave para o atingimento da eternidade (mas não como na filosofia de Platão – através do Eterno Retorno – a eternidade neste mundo). O próprio Universo, o caos, o “áporo” (interessante, não conhecia essa palavra) não é sensaborão porque não é um tempo infinito, ele começa e acaba, ele “morre”. Mas ele jamais cessa de começar e de acabar, ele é infinito. Assim como o homem.
Mas, obviamente, a sentença “o homem seria o único animal mortal” depois é contradita pela dialética do seu texto – não quis combater sua exposição, apenas re-afirmar meu ponto de vista. Finalizarei com aspas de Nietzsche:
“Afirmar um único momento é aceitar todo o anel da vida, o círculo feliz da existência”
“Eu irei ficando velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho… Se fosse o contrário ! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse !… Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!”
– Dorian Gray, um jovem ingênuo